domingo, 26 de dezembro de 2010

Obrigado a todos


No dia 28 de Dezembro o blog ‘Mergulho na Literatura Européia’ comemora três meses de atuação desde a postagem de estréia. Isso me deixa inteiramente comovido. As estatísticas indicam mais de 2000 acessos à pagina, o que demonstra a aceitação desse espaço, além de suas constantes aparições nas pesquisas em sites de busca. Gratidão especial para os blogs ‘Meus Devaneios’ de Michele (primeira seguidora!), ‘Chocolate com Pimenta’ de minha querida Lua Nova, e ‘Olhai os Lírios do Campo’ de Viviana; Desses espaços vieram os maiores encaminhamentos de visitantes. Obrigado pela contribuição (mesmo involuntária), prometo me esforçar para oferecer o mesmo, divulgando seus trabalhos. 

Sou muito feliz também por receber acessos de mais de uma dezena de nações, em especial Portugal, Canadá, Estados Unidos e Holanda. É um ótimo resultado para quem focava apenas o Brasil e Portugal! E não são visitas vazias, já que essa blogosfera conta com cerca de cem comentários, todos igualmente apreciados.

Gratidão também aos meus vinte e um seguidores, esses que estimo muito. A presença desses me trouxe indescritível alegria e uma gostosa sensação de realização. Considero 21 um bom número para tão pouco tempo de trabalho.

Tenho projetos para o novo ano, mas não cabe expô-los aqui, já que meu foco agora é agradecer os que colaboraram para as conquistas desse blog-espaço.

Espero contar novamente com a presença de todos no ano que vem chegando.

Desejo a vocês um magnífico, encantador e radiante Ano Novo! 

Abraço coletivo.

Sejam sempre bem vindos para mergulhar no universo das letras

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Natal Viking

Estou com um novo projeto que aparentemente vai se tornar em um romance sobre dons. Mas o trecho que vou postar não evidencia essa temática principal. Trata-se de uma versão bastante resumida do que seria o segundo capitulo. Narro, baseado em pesquisas, uma festividade viking que muito influenciou o natal ao modo europeu.

Capitulo II - A árvore de luz

O Inverno pelo qual os vikings passavam não se enquadrava como um dos piores, mas não deixava de ser pesado e longo. Bom era saber que, durante esse período de inativação das funções marítimas, os vikings tinham com o que se ocupar. O passatempo preferido de todos durante essa estação eram as festividades. Reuniões onde os companheiros conversavam e gabavam-se de suas proezas, bebiam à vontade e cantavam hinos sobre lendas heróicas.

Entretanto, alguns jovens nórdicos tinham de cumprir uma trabalhosa missão; Seguir viagem pelas terras geladas da Escandinávia e abater uma grande fera. Faziam isso pouco antes do solstício de inverno, o dia em que o Sol está mais distante do Norte da terra. Eles teriam de enfrentar ursos polares, criaturas musculosas e velozes. Levavam consigo algumas armas e seus trenós puxados por renas ou cães. Os outros aguardavam a chegadas dos valentes garotos, preparando decorações para a árvore mais corpulenta da região. Recolhiam nozes, castanhas, pinhas e outros frutos, e os enfeitavam com laços de tecidos finos e delicados, para pendurá-los nos galhos, simbolizando a fartura e prosperidade. Velas eram espalhadas por todo o perímetro ao redor do enorme pinheiro. Ardiam cintilantes, alimentando-se do ar rarefeito. Os nórdicos sabiam que precisavam de uma luz para guiar seus rapazes e para espantar toda a treva que poderia se apoderar dos corações humanos.

Os dias se passavam e todos aguardavam seus valentes caçadores, que muitas vezes tinham a desgraça de jamais tornarem ao seu lar. O banquete os aguardava; Muito bacalhau, vinho e apetitosas iguarias. As crianças ouviam histórias cantadas de natais passados. Um dos anciões citava um antigo verso:

Luz do mundo, que acolhe os destemidos
Abrace nossos jovens e os consola no que têm sofrido
Jamais deixe que se percam na imensidão albina dessas terras sombrias
Garanta que eles experimentem outra vez o amor caseiro que os cobria
Os guie para a luz, e os abrace como filhos desgarrados

E então, em um momento radiante, surgiam aqueles jovens, em seus trenós, cobertos  com a pele de um urso. A parte sangrenta por fora e a peluda para dentro, de modo que se aqueciam. Suas barbas louras estavam encobertas de neve. Assemelhavam-se a velhos de roupão vermelho...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Movimento anti-fantasias

"O segredo para uma grande fantasia são personagens que são extraordinários e completamente humanos"

Mary McNamara - Jornalista estadunidense


Embora muito bem aceitos pelo público geral, os livros de fantasia são constantemente apontados como uma 'fulga para a falta de criatividade' ou mesmo como trabalhos sem correlação com as 'questões relevantes da realidade'. Difícil de explicar tamanha relutância em aceitar o fato de que estórias ditas fantásticas são tão profundamente humanas quanto os maçudos tratados filosóficos; E que exigem tamanho envolvimento e dedicação do escritor quanto qualquer outro romance de abordagem política e social.

Tanto o escritor Irlandês C. S. Lewis quanto o sul-africano J.R.R.Tolkie abordaram personagens que buscam refulgiu para uma guerra com sua imaginação e com o sentimento de fraternidade. O próprio J.R.R.Tolkie participou da Primeira Grande Guerra e escreveu 'O Senhor dos Anéis', um romance onde deixa evidente a cobiça e a ganância humana, mas sem esquecer de apontar a lealdade e a amizade como as maiores armas que alguém pode ter. JK Rowling demonstra uma relação absurdamente íntima com a morte de forma tão delicada e esclarecedora que choca até os críticos mais apurados. A série 'Coração de Tinta' de Cornelia Funke sintetiza, de forma igualmente encantadora, o jeitinho como a literatura estende seus ramos para além da fronteira com a realidade e cria uma nova perspectiva, um novo universo, uma interação.

Se o próprio Deus se utiliza dos sonhos figurativos para expressar seus planos aos homens, quem pode negar a praticidade de tal artifício? Contos de fantasia vêm envolvendo os homens desde os tempos das fábulas de Esopo, chegando a La Fontaine e aos Irmãos Grimm, até alcançar os tempos modernos. E nessa nossa época onde tudo é incomodamente metódico e sistemático e onde a depressão reina, não há melhor refúgio que as melodias das sereias, a magia dos elfos ou os confrontos entre dragões.


"A arte não é a verdade. A arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade."

Pablo Picasso
 
"Creio na resolução futura desses dois estados, aparentemente tão contraditórios, tais sejam o sonho e a realidade, em uma espécie de realidade absoluta, de super-realidade, se assim se pode chamar."

André Breton em 'Manifesto surrealista'

Imagem do Museu da lingua Portuguesa - Fonte

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

'Pegue o que puder, sem nada devolver'


Há 160 anos nascia em Edimburgo, na Escócia, Robert Louis Balfour Stevenson, escritor que viria a se tornar um dos maiores de todos os tempos com o aclamado “O Médico e o Monstro“.

Escreveu uma extensa lista de poemas, contos e livros, publicados entre 1877 e 1893, ano de sua morte. Robert, que ficou conhecido por “Contador de Histórias de Samoa” se mudou para Samoa, na Polinésia e ali viveu até a morte aos 44 anos. O Arquipélago da Polinésia pode ter sido a inspiração para uma grande jornada em alto mar que se tornou um de seus trabalhos mais famosos.

Em “A Ilha do Tesouro” é narrada uma deliciosa estória sobre um garoto que trabalhava em uma estalagem e então se depara com um bêbado e suposto marinheiro. Desse encontro se desenrola uma grande aventura em busca de um tesouro. Aventura essa que eu li na minha infância, embalado pela brisa noturna que percorria o terraço de minha avó.

Eu e meus amigos estávamos na fase de romances de corsários, caças ao tesouro, saques em alto mar, desbravamento do horizonte, pernas de pau e papagaio sobre os ombros.  O livro era um empréstimo de um colega que já estava lendo 'Piratas das Caraíbas: Jack Sparrow' escrito por Rob Kidd, um pseudônimo adotado pela equipe de escritores que trabalham na trilogia do 'Piratas do Caribe'. Eles escreveram treze novelas dessa série entre 2006 e 2009, antes de continuar a escrever 'Piratas do Caribe: Lendas da Corte da Irmandade' a partir de 2008, que se passa 13 anos antes de 'Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra'. Nessas obras, eles contam sobre a infância e Adolescência de Jack Sparrow, personagem cinematográfico que já ganhou ares de lenda. O proximo filme da saga será 'Piratas das Caraíbas: Em marés estranhas', com lançamento previsto para 2011. Esse novo filme possue referências às obras de Julio Verne, em especial '20000 Léguas Submarinas' (Mais informações aqui e também aqui)

Entretanto, como tudo na juventude, essa fase foi passageira. Fomos deixando de lado os piratas e os confrontos de lâminas que se colidiam guinchando como porcos. Com o tempo, passamos a nos tornar adeptos dos romances policias de Agatha Christie...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tudo tem um fim...

E por vezes o fim é angustiosamente aguardado. Acabei a minha temporada de exames vestibulares! Agora é só esperar para saber se eu vou fazer Geologia, Licenciatura Química ou Arqueologia. Mas se dê em nada, eu desisto e faço concurso público ao nível médio. Pois bem, agora estarei novamente me dedicando a esse blog e à Biblioteca Julio Verne. Entretanto, eu tenho novas! Vou trabalhar também no Harry Potter Pride, uma extenção do Forum HarryPotter , com meu amigo João Antônio.

E agora eu preciso cumprir uma dívida. Recebi - faz um tempão - um selinho de Fernanda e tenho de repassá-lo. Aí estão os meus presenteados:


Ricardo, do blog Três Vassouras, que eu sempre frequento para ficar atualizado com a minha saga favorita.

Bely, do blog Bell's Lima , uma garota que eu sei que me detesta, mas de quem eu não consigo parar de ler os textos.

E o Blog Conto a Conto, que possue textos engajadíssimos e fartos de significados. 

 E tem mais uma nova. Eu estou construindo uma comunidade no Orkut para servir de apoio ao Blog, Quem puder acesse aqui.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Clássico desabrochando com nova aparência


Mais um épico da literatura entra no embalo cinematográfico de novas adaptações. Dessa vez trata-se de um renomeado conto do folclore germânico ambientado na Floresta Negra no sul alemão e que foi eternizada no século XIX por Jacob e Wilhelm Grimm, tendo sido escrito originalmente por Charles Perraul. O Título original do filme é 'Red Riding Hood' que traduzido poderia ser 'Capuz vermelho' ou 'Chapeuzinho Vermelho'. Entretanto, o nome adotado para o Brasil foi 'A Garota da Capa Vermelha'.
O que tudo indica é que se trata de um suspense adulto que envolve um romance proibido e uma criatura ameaçadora. Em uma vila na era medieval uma jovem chamada Valerie se apaixona pelo forasteiro órfão Peter, levando sua família ao desgosto, já que estava prometida a outro homem. O casal - como de praxe - planeja fugir, mas adia seus planos quando a irmã mais velha de Valerie é morta por um lobisomem que vaga pela floresta próxima ao vilarejo.O filme tem previsão para o final do primeiro trimestre de 2011 e parece uma boa proposta para as férias.




Ilustração do francês Gustave Doré (1832 - 1883)


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Memorável...

Sou daqueles que sofrem epifanias após saborear uma obra artística que possua dignidade. E foi isso o que eu experimentei quando fui à sala do cinema assistir a Parte I de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Comenta-se muito a omissão de personagens, mas isso não comprometeu o trabalho, que ganhou um tom mais analítico. O que realmente houve foi uma materialização das angustias e dos anseios do trio protagonista. A ambientação saiu bem sombria e mórbida, a tensão impactante. Entretanto, cenas como a tocante dança de Harry e Hermione trouxeram lascas de esperanças, devaneios que alimentaram a chama da fé no amor.
Destaque para a Edwiges e Dobby que morreram deixando um rastro de bravura e lealdade.



sábado, 20 de novembro de 2010

Um dia, toda criança no mundo saberá seu nome...

"A meio caminho da subida íngreme, porém, eles encontraram palavras gravadas no chão.

Paguem-me os frutos do seu árduo trabalho

O Cavaleiro Azarado apanhou sua única moeda e colocou-a na encosta relvada, mas ela rolou para longe e se perdeu. As três bruxas e o cavaleiro continuaram a subir, e, embora tivessem andado durante horas, não avançaram um único passo; o topo continuava distante e a inscrição permanecia no chão diante deles.

Todos se sentiram desanimados quando viram o Sol passar por suas cabeças e começar a declinar em direção ao longínquo horizonte,  mas uma das bruxas andou mais rápido e, empenhando mais esforço do que os demais, estimulava-os a seguir seu exemplo, embora tampouco avançasse na subida do morro encantado.

- Coragem amigos, não fraquejem! – gritava ela, enxugando o suor do rosto.
A medida que as gotas de suor caíam, cintilantes, na terra, a inscrição que bloqueava o caminho desaparecia, e eles descobriram que podiam prosseguir."

A Fonte da Sorte - 'Contos de Beedle, O Bardo' de J.K.Rowling 




Estava mais do que na hora de alguém dar o ponta pé inicial para o renascimento dos contos medievais com suas facetas originais. Obras onde as lições são aprendidas no desenrolar do enredo, e não apenas em frases filosoficamente estruturadas. Histórias que contam da magia antiga e de seres místicos, mas cujo foco principal é retratar as verdades da vida social, política e emocional das pessoas. O folclore britânico experimenta um novo desabrochar com as excursões literárias de Jo Rowling – que assumiu o nome de Joanne Kathleen Rowling, para se utilizar do abreviativo J.K.Rowling que garantiu, por pouco tempo, o ar de dúvida se o autor era do gênero masculino, o que supostamente atrairia os garotos. 

Seus temas podem ser enxergados por vários ângulos. Visões históricas e políticas onde a nobreza é uma instituição falida e os políticos tentam passar uma falsa idéia de segurança. O Ministério da Magia que com suas artimanhas e falcatruas demonstra a decadência das intistuições políticas; Os Malfoy e as outras famílias de ‘Puros sangues’ que se envolvem em corrupção e em práticas ilegais; Outra visão pode ser a da aceitação e superação da morte.

Jo garante que não pretendia forçar ‘nenhum sistema de crenças’, mesmo confessando que o livro de Harry Potter possui pesada referencia aos princípios e à história cristãos, onde se destaca o sacrifício de morte em nome do amor. ‘Quando alguém morre o amor não para de correr como quem fecha uma torneira’, e isso se mostra verdade quando vemos que a morte da mãe de Rowling teve influencia clara sobre toda a história da série. Sua mãe morreu mas a relação de amor entre as duas perdurou e deu como fruto uma saga comovente sobre superação da morte e o poder do amor. Mergulhar no seu mundo de magia foi um escape para a dor da morte. ‘Se foi um refúgio para estas crianças, dá para imaginar como foi para mim’ confessou a escritora, em entrevista exclusiva para Oprah Winfrey.  E só quando as pessoas se livrarem da viciosa tendência de ler baseado na superficialidade e não nas entrelinhas, é que essas palavras da escritora lhe serão compreensíveis: “Não estou dizendo que acho que magia existe, não estou. Mas esta é a idéia da magia, de que nós mesmos temos poder e podemos moldar nosso mundo.”

Jo trabalhou como secretária em Londres até a morte de sua mãe de esclerose múltipla o que a levou a uma primeira crise emocional. A segunda crise que desencadeou uma depressão clínica veio com o divórcio quando ela se mudou de Portugal para a Escócia com sua filha ainda bebê. Experimentou tanto a pobreza quanto as dores da alma. Daí nasceram os Dementadores, seres mórbidos e encapuzados que se alimentam de pensamentos bons, transmitindo para as pessoas a avassaladora sensação de que nunca mais sentirão alegria na vida. E todos acabam por aprender que para afastar os dementadores da vida não há nada melhor do que memórias felizes e – é claro – uma boa dose de chocolate.

Ela tinha vinte e cinco anos quando em uma viagem de metrô na estação de King Cross, uma das mais importantes da Grã-Bretanha, seu veiculo que ia de Manchester à Londres se atrasou por problemas técnicos e então a correnteza de idéias começou a fluir. A história de um menino que não sabia que era bruxo, sua cicatriz, a escola de bruxaria e suas casas e disciplinas inusitadas... Tudo nascia ali – a animação deve ter se confundido com a dolorosa autoflagelação por não está com uma caneta na ocasião. Bendito maquinista que não fez o checape prévio!  A ‘Pedra Filosofal’ foi escrita nas cafeterias de Edimburgo, na Escócia, terra do Uísque, da gaita de foles e dos saiotes. Daí para ser publicada foi um martírio. Houveram seguidas recusas das editoras, mas segundo o que dizia a voz na cabeça da Rowling na época, a dificuldade seria apenas na publicação, ‘se ele for publicado, terá muito sucesso’.  Isso foi pressentido no início do primeiro livro, nem que inconscientemente: ‘Um dia, toda criança no mundo saberá seu nome. ’

J.K. Rowling, mãe solteira com problemas financeiros e emocionais, aceitou o contrato com o desanimador aviso de seu agente de que ela ‘nunca terá dinheiro escrevendo para crianças’. E foi algo a mais do que o título de primeira pessoa a se tornar bilionária através da escrita que Jo conquistou. Ela se tornou vastamente reconhecida e prestigiada, uma das mulheres mais influentes na história. Lançou 400 milhões de livros em cerca de setenta dialetos para leitores em centenas de nações. O último livro de série foi o best-seller mais rapidamente vendido de toda a história. Tem quem lhe dá honras de que atualmente Rowling é a escritora que mais introduz as crianças no mundo das letras.

Escreveu sua última obra da série no hotel histórico Balmoral, também na escócia. A autora comparou o processo de finalização da série com a morte; ambos dolorosos e inevitáveis, ‘uma grande perda’. Indiscutivelmente esclarecedor! E como qualquer conto grimniano que se pressa, o final não poderia ser outro além do ‘Tudo estava bem’...

“Se eu achasse que poderia ajudá-lo – disse Dumbledore a Harry, brandamente – mergulhar você em um sono encantado e permitir que adiasse o momento em que terá de pensar no que aconteceu, eu faria isso. Mas sei que não posso. Amortecer a dor por algum tempo apenas a tornará pior quando você finalmente a sentir”

Harry Potter e o Cálice de Fogo – J.K.Rowling

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A vida segundo Shakespeare - Ninguém melhor \o/



"O mundo inteiro é um palco.
Todos os homens e mulheres não passam de atores,
Têm as suas entradas e saídas;
E na sua vida o homem desempenha vários papéis; Os seus atos têm sete idades. Primeiro, a criança,
Gritando e babando nos braços da ama.
Depois o aluno chorão, com a sua pasta
E a sua brilhante face matinal. Vai-se arrastando como um caracol
De má vontade para a escola. E depois o apaixonado
Suspirando como uma fornalha, com uma balada triste
Composta para a sobrancelha da sua namorada. Mais tarde um soldado,
Cheio de estranhos juramentos, e barbado como um leopardo,
Zeloso da honra, e violento e rápido na luta,
Buscando a bolha de ar que é a fama.
Até na boca do canhão. E depois a vez do Juiz,
Com sua barriga redonda recheada por um bom capão,
De olhos severos e a barba de cortes formal,
Cheio de sábios refrões e exemplos modernos;
E assim representa seu papel. A sexta idade se transforma
Em calças largas e chinelos,
Com óculos no nariz e a bolsa do lado,
Os seus calções da juventude, bem conservados, 
demasiadamente largos
Para suas magras canelas; e a sua forte voz viril,
Transformando-se novamente em falsetes infantis, apita
E assobia o seu som. A última cena de todas,
Que põe fim a esta estranha história cheia de acontecimentos,
É uma segunda infância e um simples esquecimento,
Sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem nada."

William Shakespeare

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Achados nos exames


“Homens na Inglaterra, por que arar para os senhores
Que vos mantém na miséria?
Por que tecer com esforços e cuidado as ricas roupas
Que vossos tiranos vestem?
Por que alimentar, vestir e poupar do berço até o túmulo
Esses parasitas ingratos que exploram vosso suor – ah,
Que bebem vosso sangue?”
 Os homens da Inglaterra - Percy Shelley 

Encontrei esse texto durante meus exames de vestibular. Aqui o poeta inglês Shelley demonstra sua posição em relação às conflitantes condições sociais na Inglaterra durante o início do século XIX, cheia de contrastes e desigualdades. Fiquei surpreso com a escolha desse autor em uma prova de âmbito nacional, já que a educação brasileira demonstra certo receio em semear a cultura literária em nível universal. Talvez seja por que a literatura nacional por si só não se infiltrou em escala aceitável no mundo dos estudantes, o que é lastimável.

Encontrei também o fragmento abaixo do ‘Príncipe’, de Maquiavel, que não é um dos meus escritores favoritos, mas tem a sua importância histórica, além de conquistar uma gama considerável de admiradores. Sempre o achei ultrapassado, principalmente por saber que Líderes populistas que não optaram pela tirania tiveram glória memorável. Entre esses líderes destaco Elizabeth Tudor, que optou pela tolerância religiosa mesmo em uma época de perseguições e triunfou sobre a grande armada marítima espanhola de Filipe II; Antônio Conselheiro, que administrou uma comunidade auto-sustentável mesmo em condições precárias; Sem contar também o nosso ainda atual Presidente Lula que, mesmo não tendo o 'peso educacional' de outros presidentes da nossa história, tem aptidão para a liderança e a vontade de realmente fazer algo pelo bem dos brasileiros, e não só da economia ou da elite.

Entretanto, sou forçado a dar o devido valor histórico a Maquiavel e suas idéias - que o tempo colocou por chão. Lembro de ouvir comentários de que o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso dormia com ‘o príncipe’ no seu criado mudo. E adivinhem o que ele fez pelo país...


“O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros que, por muita piedade, permitem os distúrbios que levam ao assassínio e ao roubo.”

Maquiavel 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Honra aos dignos de honra...

Recebi esse selinho da minha tão estimável amiga Michele do Blog Meus Devaneios, e tenho o dever de repassá-lo para aqueles que tornam o meu mundo mais radiante com seus blogs tão acolhedores. Demorei um pouco para postar, e acabou que alguns dos sibe espaços que eu tanto amo, como o de Viviana e o de Fernanda, já foram premiados.No entanto, quero ressaltar a minha lástima de não poder indicá-los eu mesmo.

Voilá minhas queridas:

selinho vai para Milu, do blog Rússia Show, tanto por sua inabalável dedicação à cultura desse povo tão espetacular quanto pelo belo engajamento político.

selinho vai para Deny do Rabisco Online, por compartilhar tão generosamente seus rabiscos repletos de encanto.

e o último selinho (igualmente especial) vai para Lua Nova, recente amiga, do blog Chocolate com Pimenta, em homenagem ao seu engajamento de explorar o mágico, o abstrato e o impalpável.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O livro dos Saltimbancos - Parte II



Para os que já viram a Parte I 
e acham que vale a pena prosseguir...


Carlito passou a se encubar em seu quarto ou na sala de leitura. Tornava-se esguio e fechado, o que o atarefado Sr.Rocha notara, mas não deu especial atenção de início, pensando tratar-se de “Coisas dos rapazes de hoje em dia... Tão auto-suficientes!”. Em um passeio ao museu, Carlito, seu pai e um amigo recente se depararam com uma tapeçaria colossal onde se viam gravuras coloridas e fragmentadas.

- Donde é este, mister Rocha? – perguntou o acompanhante.

- São tapetes da alta idade média com mosaicos bizantinos – Respondeu o garoto, gravando uma expressão de surpresa agradável na face de seu pai.

- Onde aprendeu essa, Carlos? – indagou o Sr. Rocha, orgulhoso.

- Com o Curinga – respondeu, sem dá margem para o pai pergunta-lhe quem era o tal curinga, pois correra para admirar os canivetes rudimentares.

De volta á casa, cumprimentou um acrobata, que passava as noites sobre o lustre da sala. Seus olhos eram carnudos e suculentos, rodeados por vãos escuros e sombrios, que davam a impressão de que os ossos da face recuaram. Cobria-se com trapos e uma tanga de couro leve cor de lodo. As pernas incrivelmente longas se cruzavam e percorriam o corpo, repousando sobre os ombros. Uma mulher robusta, de olhos altivos, exibia seu xale cor de âmbar, do qual não cansava de disser que era um presente de um marinheiro do oriente. Um domador de feras brincava com Sofia no berço, enquanto essa grunhia “sodadinho, sodadinho”. O felino negro enorme descansava sobre o assoalho. E, quando era sentia a mínima agitação, todos desapareciam como em um salto. O Sr. Rocha estava frustrado com  tamanho recuo para com a  realidade. Observava intrigado o beirado das portas, onde uma luz clara e fantasmagórica parecia surgir de uma fonte sobre o piso. No quarto, o Curinga e uma miúda dançarina encenavam um habilidoso teatro de sombras, sobre a luz que se propagava do livro aberto. O livro parecia em chamas, mas permanecia intacto. Era sublime.

Em uma dessas apresentações, o Coringa contava para o garoto, com o auxílio das imagens na sombra, como os hunos tinham abandonado o território da antiga Rússia e atacado ferozmente o Império Germano e o Romano. De repente, ouviram-se pancadas na porta trancada, que exigiam que Carlos a abrisse. Carlito observava a porta, receoso. O Curinga, atirando para o lado as extremidades de seu chapéu cone de várias pontas, confidenciava em secreto ao garoto.

- Sabes que se te tornares um de nós poderás ser também errante e livre. Explorar os mundos que quizeres e não apenas os que te obrigam – sussurrou o Curinga, com sua voz rouca e cativante, que ditava as palavras como se delas quisesse retirar todas as sensações do mundo – ele é só um obstáculo... – e, sorrindo aberto, desapareceu sobre a penumbra dos livros.

Durante o jantar, o Sr.Rocha  batia os dedos pesadamente sobre a mesa lixada de eucalipto , produzindo um som embaraçoso e perturbador. Seu filho comia pacientemente, ainda com o livro descansando nos joelhos, escondido sobre a tampa da mesa. Parecia não reparar o olhar intrigado de seu pai. O bebê urrava “Cadê sodadinho?” .Terminada a sobremesa de doce de abóbora, o menino saiu saltitante para o quarto, encoberto por um olhar pesado, impaciente.

- O que tem feito se recuando no seu quarto como uma ratazana assustada? – Perguntou, finalmente.

Carlito parecia perturbado, como se a pergunta ofendesse. Acabou por responder que se tratava de nada em especial.

-Deixe-me ver o livro – Ordenou seu pai, com o braço esticado, sem demonstrar emoção.

Carlito parecia receoso e perturbado. Contraiu o livro com mais firmeza sobre os dedos. O homem insistiu. Uma faísca de ira parecia se propagar pelos olhos abalados do garoto. Percebendo a recusa, o Sr.Rocha se avançou em direção ao menino, até que sentiu uma pancada gritante na nuca. Olhou para trás e não avistou nada. Estava estupefato. Carlos correu para a sala de leitura, segurando firmemente o livro. Viu o Curinga, se equilibrando sobre uma pilha de livros. Deram olhares significativos e o ser sumiu. O arfante homem penetrou na sala, batera os olhos sobre o filho, curvando a coluna para compartilharem a mesma altura.

- Vamos deixar de brincadeiras. Confie em mim. É só entreg... – Nesse momento, uma fera negra que brandia freneticamente, gelando os nervos, saltou sobre o Sr.Rocha, decompondo-se em uma espessa fumaça espectral. Foi como se o animal tivesse dilacerado o homem pelo seu interior, fazendo-o despencar em um baque expressivo. Carlito gritou energicamente. A neblina se sintetizou outra vez em um gato cor de carvão. Outro grito se ouviu da cozinha. O Curinga surgiu em seguida, com um sorrindo de satisfação, enquanto observava o corpo inerte do pesquisador. Carlito se irrompeu em fúria e disparou desesperando para a porta, em direção a cozinha. A Dona Glória estava abatia sobre o piso, morta. Ele chorou. Tinha de se livrar do livro. Inspecionou o avental da ama. Apolo, o Curinga, o observava apoiado na moldura da porta entreaberta. O ser se adiantou, ainda sorrindo pertubavelmente.  

- O que estás pensando em faz... – perguntou Curinga, quando viu o garoto acendendo o isqueiro que apanhara do bolso de Dona Glória. Carlito fez a chama dançar sobre o livro, sem se propagar. O Coringa adiantou-se e saltou sobre o guri...

.......................................................................................

Os corpos foram encontrados por um colega de trabalho do Sr.Rocha, que desconfiara da ausência não justificado em uma reunião. O corpo do pai na sala de livros, o do bebê pálido no berço da sala e a da criada e do garoto na cozinha.Esse envolvia entre os braços um livro corpulento. A perícia não conseguiu revelar a causa mortis. Suposto envenenamento. Sem mais nenhum menbro da família vivo, a mobília, artefatos e os livros foram doados. Décadas depois, em uma zona de livros raros da Biblioteca estadual Castelo Branco, no Recife, um rapaz passeava entre as prateleiras, quando ouviu o delicioso e cativante som de uma harpa... 

sábado, 30 de outubro de 2010

O livro dos Saltimbancos - Parte I



Tudo se passa no início do século XX. Carlito e sua família mudaram recentemente para Olinda, em um bairro histórico, ardilosamente cobiçado, mas não pelo pequeno Carlos.  Era uma casa estilo colonial, uma das muitas que já observara, Branco-pálida com detalhes em tons anêmicos e deprimentes de vermelho. A vida de pesquisador e pai solteiro no Brasil era dura. O Sr.Rocha não tinha outras opções além de submeter-se a enfadonha vida de andarilho. Tinha voltado recentemente de Portugal, com mais uma leva de livros raros em galego-português.  Para cuidar de Carlito e do bebê Sofia, o Sr.Rocha havia  contratado, a duras penas, uma ama que tinha por nome Glória, negra e ex-escrava, que aprendera na senzala como ninar crianças. Carlos passava as tardes brincando com suas réplicas de carroças sobre a terra argiloso do quintal ou infortunando  o bebê, deixando  Dona Glória  livre em seus afazeres na cozinha.

Definhava em mais uma tarde mórbida e abafada quando ouviu cordas perturbarem a estabilidade do ar, produzindo uma música leve e cortante. Vinha da sala de leitura. Receoso, o garoto se dirigiu lentamente em direção ao cômodo, deixando Sofia gritar afobada no berço ‘Carguito! Carguito!’. O som se diluía no espaço e se propagava com maior intensidade, até que, sem prelúdio, o sussurro rasteiro de um instrumento de sopro acompanhou a música inicial. Arfando, Carlito espiou entre a porta entreaberta, onde nada se revelou. Entrou na sala, controlando os murmúrios dos passos. Dirigiu-se a um monte de livros enrugadas e precariamente preservados que estavam sobre uma caixa corpulenta. A música vinha caramente de lá, e agora já podia distinguir o bater abafado e fraco da repercussão. Foi retirando livro por livro, com os ouvidos atentos, despejando-os sobre o tapete submerso em poeira. Quase no fim da pilha, ele encontrou o gênesis do misterioso recital.

Era um livro corpulento, com capa rígida de coro desbotado, páginas amarelas como folhagem outonal. Por um instante ele deduziu tratar-se de um livro escrito por monges da península ibérica, mas então espiou a folha de contracapa onde letras garrafais manuais diziam “O livro dos Saltimbancos por Apolo, o Coringa”. O som cessou assim que passou para a página seguinte onde um texto escrito a mão estava acompanhada por uma pintura desbotada, com cores mortas onde repousava a imagem de uma terra batida e lisa, sem vida. Por um momento chegou a supor que deveria haver figuras de pessoas sobre aquele campo. Era quase certo, ele pressentia que solas de pés haviam repousados sobre a terra solitária. Deu uma olhada de relance nas outras páginas. Apenas figuras com imagem de fundo de torres e muralhas medievais, praças e estradas de pedra sombreadas por floresta densas. Nada de pessoas ou animais. Retornou para os escritos iniciais e passou a ler, buscando por respostas. Seguiu a leitura de olhos assombrados e esguios: 


“Tal como tecelãs imortalizam grandes feitos sob os tecidos de tapeçarias, eu ouso moldar os feitos dos artistas que, de posse de imenso gozo de dons, alimentaram almas sombrias com distrações singelas, de coração aberto. Aguardo para que esses sejam andarilhos do tempo, nômades das eras. Que as letras e as pinturas  aprisionem o espíritos dos saltimbancos para uma liberdade futura, quem dê eterna”.


Terminadas essas palavras, Carlito sentiu sobre os ombros o farfalhar de dedos sobre cordas e o som do sopro percorrendo a flauta. Enquanto seu coração experimentava ao mesmo tempo um assombro e um despertar de compreensão, virou-se, arfando, tamanha revelação macabra. Havia encontrado os habitantes das gravuras.


Texto baseado no quadro 
'Os saltimbancos' de Pablo Picasso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Feliz Dia Nacional do livro!

 "Entre palavras e combinações de palavras, circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos"
Drummond de Andrade

"informou-me que possuía 'As reinações de Narizinho', de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.[...]
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."
"Felicidade Clandestina'' de Clarice Lispector



Em homenagem a esses nossos amigos
que preservam nossa cultura e identidade

O país onde políticos 'lavam roupa suja' na lavanderia mesmo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Contra a arrogância - compartilhamento da aula de literatura...


"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguma voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que confessasse não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o ideal, se o ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos.

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta Terra?"

Álvares de Campos (Fernando Pessoa) 
Clipe sobre realização social com fracasso interior

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A goiabeira


Era uma goiabeira antiga, exuberante e altiva. Ficava no quintal da casa dos avós de alguns de nós – embora que para toda criança velhinhos simpáticos são sempre “vó e vô”. Achava-se entre os arbustos floridos e dois muros que se encontravam juntos em ângulo reto. Seu tronco se curvava logo na base, como uma saudação solene, e então se erguia reto até desdobrar em espessos galhos, com folhas verdes e cheirosas, fartos de fruto quase todo o ano, com exceção do curto inverno, entre junho e setembro. Esbanjava simpatia, acolhendo os mais velhos em sua penumbra, servindo de descanso pra os galos, suporte de gaiolas e firmamento para ninhos de canários, sabiás ou galos-de-campina. Entretanto, ninguém usufruía mais de toda a cordialidade e praticidade da árvore do que nós.

Netos, filhos de conhecidos e sobrinhos – de todos os graus. As almas infantis eram as que extraiam o melhor que a acolhedora e velha goiabeira poderia oferecer. Ao seu derredor nos reuníamos e brincávamos de todas essas lorotas juvenis. As garotas lhe faziam de moradia e os rapazes apanhavam as pipas que seus elevados galhos extraviavam em pleno voo.

Girávamos, dando piruetas das mais audaciosas nos braços mais grossos da árvore, levando não raras vezes a pequenas quedas, logo esquecidas. Doravante, quando nos tornamos mais férteis e errantes no campo da imaginação, o encosto de seu tronco e ramos se transfigurou em um berço de singelas histórias e lendas.

Não durou muito para que a paixão pelas narrativas tomasse conta de nós e nos fizesse arquitetos das palavras. Íamos de contos de fadas bobos, de foco estritamente descritivo – ao modo dos irmãos Grimm – a contos mais bem elaborados e trabalhados, que ganhavam especial atenção, pois de início esses eram raros. Nas noites cavernosas de luar ardente e cativador, nos distraiamos com contos de terror, de detalhes grotescamente ampliados e impactantes. Enquanto se narrava a estória, os galhos rangiam abraçados pela brisa noturna  e a lua distribuía feches de luz pálida entre as folhagens volumosas.Em um compartilhamento de anseios e fobias, seguíamos a noite, tal qual Mary Shelley, a beira do lago genebrês, narrara a estória do Dr. Frankenstein para distrair seus amigos.
Sobre periódicas mordidas em goiabas verdes e suculentas, tal qual o menino lobato, entrávamos em deleite diante de narrativas cômicas, verdadeiras tragédias gregas, e dos poemas de último instante, tentando-se buscar o espírito shakespeariano; O máximo que conseguimos alcançar foram rimas primitivas e pavorosas de conteúdo confuso e por vezes constrangedor. Havia momentos em que o clima se tornava tenso, a goiabeira não fazia sombras e a narrativa saia como gemidos ininteligíveis e palavras desconexas e incoerentes.

Então seguíamos para nosso refúgio em uma sala, onde, como numa caixa preta fechada, a luz que se esgueirava pelas frestas do telhado de barro galgava na parede o reflexo invertido dos galhos mais altos. Daí a fartura era de bolo de fubá, milho, cenoura ou mandioca, canjica, biscoito e bolinhos de forma além de doces diversos onde se incluía, é claro, a goiabada. E, quando o ambiente se tornava propício para a exploração do inconsciente claricense, em bando ocorria o regresso ao conforto do fraternal do fabuloso vegetal.

Os anos passavam enquanto o tempo se refletia nas faces das crianças, que agora se enamoravam,seguiam carreiras e avançavam nos estudos, se familiarizando com a realidade. O tempo, carrasco nunca vacilante, também aprontou das suas com a velha goiabeira, que perdia o vigor, a frutividade, a coloração verde-viva e os ramos firmes. Padecia com o tronco desfalecido, folhagem rala e seca, creme-avermelhadas e já não dava mais frutos. Aos poucos não servia mais de abrigo para passarinhos, e os tatus habitavam sobre suas raízes quebradiças.

E de forma lenta e dolorosa a árvore morreu e seu tronco foi trabalhosamente desgastado por pequenos animais, até mais nada resta alem de terra sem vida. E, embora o tempo tenha surrupiado nosso recanto de suspiros e devaneios, nossas almas e nossas memórias insistem em preservar o espírito de vivacidade inspirador do ‘pé de goiaba’. A goiabeira tinha, em tempos de formosura, abraçado nossa imaginação com seus galhos malandros e sorrateiros.
Desenho de Geraldo Roberto da Silva
Saudades da infância...
Vó Lia e Vô David, amo vocês
In memória do 'pé de goiaba' e da infância querida

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando bate aquela angústia...


"Quando me vi assim, desprovido de qualquer possibilidade de auxílio humano, incapaz de tentar algo para me salvar, pensei no auxílio do céu. As lembranças de minha infância, de minha mãe, que só conhecera quando era muito pequeno, voltaram-me à mente. Recorri à oração, embora tivesse pouco direito de ser ouvido por Deus, ao qual me dirigia tão tarde, e implorei com fervor. O recurso à providência acalmou-me um pouco, e consegui concentrar todas as forças da inteligência em minha situação. Tinha víveres para três dias, e meu cantil estava cheio. No entanto, não podia ficar sozinho por mais tempo do que isso."
                   
 "Viagem ao Centro da Terra" de Júlio Verne

Às vezes, aos sermos privados das possibilidades lógicas de escape, encontramo-nos em tal desespero que enfim lembramos da chamada ajuda divina. Esse ser superior do qual, ainda jovens, ouvimos tanto falar como criador e ajudador do homem. Então os anos passam e chegamos a nos virar por conta própria, por vezes esquecendo, e por outras negando tal amigo de infância. Entretanto, Doravante esbarramos em situações em que apenas Ele pode vir com amparo. Sendo esse um bom amigo, nos estende a mão, mas então, quando as coisas entram nos eixos, esquecemos Dele novamente...
Michelangelo, nos seus momentos finais de vida, escreveu suas últimas palavras:
"Meus pensamentos, outrora ligeiros em torno de coisas prejudiciais para entender, que são agora? Em vão suspiro pela ajuda da pintura e da escultura, meu único refúgio é aquele amor divino, que da cruz estendeu seus braços para me salvar."
Alguém pode disser que se trata de um surto de desespero em um velho com o pé na cova, enquanto outros enxergariam isso como um estalo de compreensão. Mas o que vale a pena ressaltar é que, em muitos casos, as coisas mais 'espúrias e singularmente extraordinárias são as mais simples e verdadeiras' (Flávio Alencar)
 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mais um prêmio para J.K.Rowling


A autora britânica J.K. Rowling, criadora da série de livros Harry Potter, recebeu no dia 19 de outubro o prêmio Hans Christian Andersen de Literatura, em Odense, na Dinamarca.
A autora foi a primeira a receber o prêmio, além de ganhar uma escultura de bronze de O Patinho Feio. O prêmio é dado a pessoas que, assim como Andersen, tornaram a literatura mais mágica e encantadora. Hans Andersen é um escritor dinamarquês nascido em 1805 que escreveu cerca de 160 contos de fadas e poemas até a sua morte em 1875.
Rowling ainda disse que o autor de clássicos como “A Pequena Sereia” e “O Patinho Feio” havia ‘criado personagens eternos e indestrutíveis’ e que Anderson reconheceu que obras para crianças não devem ser ‘brandas ou sentimentais ou ainda desprovidas de desafios’. É um marco nas obras da autora a abordagem de sentimentos considerados 'fortes demais para criança'.
A série de 'Harry Potter' é repleta de referências em relação à morte, mas também ao poder protetor e restaurador do amor, esse único que pode vencer até a maldição da morte. A autora confessou ter estado em um momento de depressão quando começou o livro. Era uma mãe solteira que passava por dificuldades financeiras. Em entrevista à apresentadora Oprah Winfrey, em sua casa em Edimburgo, Escócia, J.K.Rowling diz que no dia 11 de setembro de 2001, recebeu uma mensagem de seu editor onde, em resposta a uma discussão, ele critica os que 'dizem que não devemos ensinar as crianças sobre o mal'.
Além dos sete livros de  “Harry Potter”, a autora também escreveu mais dois livros relacionados à série e o magnífico “Os Contos de Beedle, o Bardo”, repleto de referências à série, mas com temáticas próprias, como a fraternidade ou  a caça as bruxas.

 
"Nossa única defesa contra a morte é o amor"
José Saramago

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O romantismo sombrio de Lord Byron


Os homens, afinal, vieram me libertar;
  Não perguntei por quê, nem quis saber onde;
Enfim, para mim, era tudo a mesma coisa,
  Agrilhoado ou livre, igualmente,
Eu aprendera a amar a desesperança

O prisioneiro de Chillon, de Lord Byron

Em 1530, o patriota genebrês François Bonivard foi preso em uma masmorra no castelo de Chillon, localizado na beira do lago Lémam, Suíça. O poema de Byron - originalmente chamado de “Le Prisonnier de Chillon” - narra os seis anos de martírio de François Bonivard, com um enfoque psicológico onde as sensações do personagem são descaradamente reveladas. Esse poema é hoje um dos mais apreciados trabalhos da Segunda geração do romantismo inglês.
Se você leu meus antigos posts, já deve ter reparado que o Castelo de Chillon é o mesmo castelo onde Mary Shelley, na presença do próprio Lord Byron, narrou a estória de “Frankenstein”. Ambos se tornaram símbolo marco do romantismo gótico inglês. Além do “Prisioneiro de Chillon”, Byron também escreveu a famosa obra “Don Juan”,uma antiga lenda sobre um “playboy” do passado. O que diferenciou o romance de Byron para outros já escritos sobre a lenda, foi um Don Juan menos sedutor e mais uma vítima da sedução feminina. Don Juan foi também o nome do barco do poeta Percy Bysshe Shelley, amigo de Byron e esposo de Mary Shelley.
O trabalho de Lord Byron é marcado por um enfoque de sensações e sentimentos, onde as ações ficam de lado e a análise psicológica ganha destaque. Ele também se utiliza de ambientes úmidos e sombrios e perspectivas frias, deprimentes e mórbidas. Era um carrasco das almas.

Na quietude em que aprendemos a residir,
Meus grilhões e eu nos tornamos amigos,
Pois uma longa convivência mutua tende
A nos tornar o que realmente somos: ainda que
Tenha recuperado minha enfadonha liberdade.

Lord Byron
O castelo de Chillon, lago lémam, Suiça